{"id":11418,"date":"2024-04-01T12:18:19","date_gmt":"2024-04-01T15:18:19","guid":{"rendered":"http:\/\/dotwork.com.br\/jornal\/2024\/04\/entenda-o-que-e-o-transtorno-do-espectro-autista\/"},"modified":"2024-04-01T12:18:19","modified_gmt":"2024-04-01T15:18:19","slug":"entenda-o-que-e-o-transtorno-do-espectro-autista","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/dotwork.com.br\/jornal\/2024\/04\/entenda-o-que-e-o-transtorno-do-espectro-autista\/","title":{"rendered":"Entenda o que \u00e9 o transtorno do espectro autista"},"content":{"rendered":"<div>\n<p style=\"text-align:center;\"><a class=\"\" href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/saude\/noticia\/2024-04\/entenda-o-que-e-o-transtorno-do-espectro-autista\"><br \/>\n                    <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/cdn.jsdelivr.net\/gh\/sergiosdlima\/assets-ebc@1.0.0\/abr\/assets\/images\/logo-agenciabrasil.svg\" alt=\"Logo Ag\u00eancia Brasil\" style=\"height: 54px;\"><\/a><\/p>\n<p>A inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia, em Volta Redonda, no sul fluminense, foram dif\u00edceis para Ricardo. Ele n\u00e3o conseguia conversar com outras pessoas da sua idade e evitava ambientes muito cheios. Era incompreendido pelos colegas e, por n\u00e3o conseguir se enturmar, foi v\u00edtima de <em>bullying<\/em>.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.png?id=1588169&amp;o=rss\" style=\"width:1px; height:1px; display:inline;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/ebc.gif?id=1588169&amp;o=rss\" style=\"width:1px; height:1px; display:inline;\"><\/p>\n<p>\u201cEu sempre tive a compreens\u00e3o de que eu era diferente. Que eu n\u00e3o conseguia fazer as mesmas coisas que as pessoas faziam. Falavam que eu era chato, enjoado, antissocial\u201d, relembra ele. \u201cEu achava que era s\u00f3 isso. N\u00e3o imaginava que tivesse um diagn\u00f3stico para isso\u201d.<\/p>\n<\/p>\n<h3>Not\u00edcias relacionadas:<\/h3>\n<ul>\n<li><a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/politica\/noticia\/2024-02\/comissao-aprova-validade-permanente-para-diagnostico-de-autismo\">Comiss\u00e3o aprova validade permanente para diagn\u00f3stico de autismo.<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<p>Ricardo Fulgoni hoje \u00e9 juiz de direito e atua na Justi\u00e7a estadual do Paran\u00e1, onde tomou posse em 2022, pouco depois de descobrir o motivo de ter tanta dificuldade para se relacionar com outras pessoas.<\/p>\n<p>\u201cOs anos foram passando. Na vida adulta, eu, com a compreens\u00e3o de que era diferente, fui seguindo minha vida. Sabia que n\u00e3o conseguia fazer algumas coisas, mas fui seguindo, criando estrat\u00e9gias para superar as minhas dificuldades\u201d.<\/p>\n<p>Quando chegou a pandemia de covid-19, ele ainda era oficial de Justi\u00e7a e se preparava para o concurso da magistratura. A mudan\u00e7a de rotinas, provocada pelo isolamento social, prejudicou seu cronograma de estudos e isso o afetou muito.<\/p>\n<p>\u201cEu tinha provas j\u00e1 marcadas e eu estava com um cronograma de estudos muito bem desenhado. Eu sempre fui muito apegado ao planejamento, ao cronograma, \u00e0 programa\u00e7\u00e3o. Preciso disso para me sentir confort\u00e1vel. Imprevistos sempre foram muito dif\u00edceis para mim. E a pandemia foi uma quebra de rotina gigantesca. Eu tinha o roteiro todo tra\u00e7ado, com as datas das provas que eu ia fazer e aquilo me derrubou\u201d.<\/p>\n<p>Afetado pelas grandes mudan\u00e7as e sem vontade de sair da cama, Ricardo pensou que estava com depress\u00e3o, procurou ajuda profissional e come\u00e7ou a se tratar com antidepressivos. Mas isso n\u00e3o resolveu o problema.<\/p>\n<p>\u201cDepois de v\u00e1rios meses, nessas idas e vindas, tentando entender o que estava acontecendo comigo, veio a sugest\u00e3o de que essas minhas crises de ficar de cama o dia inteiro poderiam n\u00e3o ser decorrentes da depress\u00e3o, mas ser algo t\u00edpico do autismo. Tem at\u00e9 um nome para isso: <em>shutdown<\/em>, que \u00e9 o desligamento. Quando voc\u00ea est\u00e1 num n\u00edvel de sobrecarga sensorial muito forte, seu corpo simplesmente desliga\u201d.<\/p>\n<h2>Diagn\u00f3stico<\/h2>\n<p>O diagn\u00f3stico foi um choque, inicialmente, para Ricardo. Ele tinha a vis\u00e3o de que o autista era uma pessoa incapaz, que n\u00e3o conseguia trabalhar e que dependia da fam\u00edlia. N\u00e3o era o seu caso, ele trabalhava desde os 18 anos, quando se tornou servidor p\u00fablico do INSS.<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o passei por uma avalia\u00e7\u00e3o neuropsicol\u00f3gica e veio a confirma\u00e7\u00e3o. Nesse processo, eu passei a estudar o tema e, quando eu comecei a ler sobre o que era o autismo, os sintomas, as caracter\u00edsticas, estava ali um manual de instru\u00e7\u00f5es da minha vida. Estavam explicadas todas as dificuldades que eu tive ao longo da vida. O diagn\u00f3stico foi libertador porque tirou de mim toda a carga de culpa que eu carregava, de ser antissocial, ser chato, ser enjoado\u201d, explicou.<\/p>\n<p>Mesmo com d\u00favidas sobre se conseguiria tornar-se juiz depois do diagn\u00f3stico, ele seguiu em frente e foi aprovado no concurso. \u201cMuita gente me questiona. Para que voc\u00ea quer saber esse diagn\u00f3stico agora na vida adulta, colocar esse r\u00f3tulo de autista. Bem, r\u00f3tulos eu tive a vida inteira. Fui sempre rotulado de chato, enjoado, antissocial, r\u00f3tulos errados que eu tive a vida inteira. Se eu falar abertamente que sou autista, pelo menos v\u00e3o me colocar o r\u00f3tulo correto\u201d.<\/p>\n<p>Nesta ter\u00e7a-feira (2), celebra-se o Dia Mundial de Conscientiza\u00e7\u00e3o sobre o Autismo, criado em 2007 pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), com o objetivo de levar informa\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o e reduzir o preconceito contra indiv\u00edduos que apresentam o transtorno do espectro autista (TEA).<\/p>\n<p>\u201cO transtorno do espectro do autismo \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o do desenvolvimento neurol\u00f3gico at\u00edpico, que se manifesta nos anos iniciais do desenvolvimento e que acarreta atipicidade nas \u00e1reas de intera\u00e7\u00e3o social e de comunica\u00e7\u00e3o social\u201d, explica o neuropsic\u00f3logo Mayck Hartwig, que trabalha com o <a href=\"https:\/\/adultosnoespectro.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">atendimento cl\u00ednico de adultos autistas<\/a>.<\/p>\n<p>O juiz Ricardo Fulgoni \u00e9 uma das pessoas que tiveram um diagn\u00f3stico tardio de TEA, mas \u00e9 poss\u00edvel saber se a pessoa tem essa condi\u00e7\u00e3o logo no in\u00edcio da inf\u00e2ncia. Segundo Hartwig, os primeiros sinais do autismo j\u00e1 podem ser percebidos a partir dos 18 meses de idade.<\/p>\n<p>\u201cO diagn\u00f3stico do autismo \u00e9 feito de forma multidisciplinar. Envolve tanto um m\u00e9dico especialista, que \u00e9 geralmente um psiquiatra ou um neurologista; o neuropsic\u00f3logo, que vai fazer tamb\u00e9m uma avalia\u00e7\u00e3o do comportamento; e pode incluir tamb\u00e9m outros profissionais da \u00e1rea de sa\u00fade que t\u00eam uma capacita\u00e7\u00e3o para identifica\u00e7\u00e3o do autismo\u201d, explica. \u201cEm alguns casos, j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel haver uma indica\u00e7\u00e3o diagn\u00f3stica e o encaminhamento para terapia. Em outros casos \u00e9 mais dif\u00edcil conseguir fazer um diagn\u00f3stico precoce\u201d.<\/p>\n<p>Lucinete Andrade descobriu que sua filha, Mayara, era autista quando a menina tinha cerca de dois anos de idade.<\/p>\n<p>\u201cQuando voc\u00ea recebe esse diagn\u00f3stico, primeiramente voc\u00ea tem muita inseguran\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao futuro do seu filho. Depois, voc\u00ea passa a ter inseguran\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao desenvolvimento dele, se ele vai conseguir acessar um servi\u00e7o, uma escola, uma profissionaliza\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o \u00e9 uma constante inseguran\u00e7a\u201d, conta. \u201cAquela primeira expectativa que voc\u00ea tinha na maternidade n\u00e3o existe mais. Ent\u00e3o \u00e9 preciso aceitar a situa\u00e7\u00e3o do seu filho e entender que voc\u00ea pode ajud\u00e1-lo muito mais se entender e aceitar essas diferen\u00e7as\u201d.<\/p>\n<p>Depois de receber o diagn\u00f3stico e aceitar a situa\u00e7\u00e3o da filha, Lucinete Andrade passou a tentar ajudar n\u00e3o s\u00f3 a filha como tamb\u00e9m outras pessoas que n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de pagar por tratamentos e terapias.<\/p>\n<p>Hoje Mayara tem 20 anos e Lucinete preside a <a href=\"https:\/\/abracidf.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Autismo, Comportamento e Interven\u00e7\u00e3o<\/a> (Abraci-DF), que oferece terapia ABA (An\u00e1lise do Comportamento Aplicada) para 130 crian\u00e7as e adolescentes do Distrito Federal.<\/p>\n<p>H\u00e1, segundo o neuropsic\u00f3logo Mayck Hartwig, tr\u00eas n\u00edveis de autismo, que definem a necessidade de suporte que o autista necessitar\u00e1 ao longo da vida. Uma pessoa com n\u00edvel 1, por exemplo, s\u00f3 precisa de um leve suporte. J\u00e1 uma diagnosticada com o n\u00edvel 3 precisa de suporte substancial.<\/p>\n<p>\u201cO autismo hoje \u00e9 compreendido como um espectro de manifesta\u00e7\u00e3o fenot\u00edpica bastante heterog\u00eanea, ou seja, existem v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es diferentes do autismo. E essas manifesta\u00e7\u00f5es ocorrem tamb\u00e9m com sinais mais ou menos evidentes em algumas pessoas\u201d, pontua Hartwig.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da dificuldade para se comunicar e interagir com outras pessoas, que \u00e9 comum a todos os autistas, o TEA tamb\u00e9m pode ter outras manifesta\u00e7\u00f5es, como comportamentos repetitivos, interesses restritos, problemas em lidar com est\u00edmulos sensoriais excessivos (som alto, cheiro forte, multid\u00f5es), dificuldade de aprendizagem e ado\u00e7\u00e3o de rotinas muito espec\u00edficas.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um transtorno que tem um impacto muito grande, porque ele afeta principalmente a cogni\u00e7\u00e3o social, os pilares da linguagem. Esse espectro tem diversas nuances que comp\u00f5em o quadro. E \u00e9 um quadro heterog\u00eaneo. De um lado voc\u00ea tem autistas com altas habilidades e outros com defici\u00eancia intelectual. Alguns com hiperatividade e outros mais calmos\u201d, afirma Luciana Brites, especialista em Dist\u00farbios do Desenvolvimento e coautora do livro <em>Mentes \u00danicas<\/em>.<\/p>\n<p>Luciana, que tamb\u00e9m \u00e9 diretora do <a href=\"https:\/\/institutoneurosaber.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Instituto Neurosaber<\/a>, voltado para a dissemina\u00e7\u00e3o de conhecimento sobre neurodesenvolvimento na inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, afirma que o dia 2 de abril \u00e9 uma data importante para se combater o preconceito e informar a popula\u00e7\u00e3o sobre quest\u00f5es como o diagn\u00f3stico precoce. \u201cQuando a gente consegue fazer a detec\u00e7\u00e3o antes dos tr\u00eas anos de vida, a gente consegue, muitas vezes, mudar a realidade dessa crian\u00e7a, desse adolescente, desse adulto\u201d.<\/p>\n<p>Segundo ela, a data \u00e9 importante tamb\u00e9m para ressaltar a import\u00e2ncia da inclus\u00e3o das crian\u00e7as com autismo nas escolas e do acesso delas ao tratamento. \u201cAs pol\u00edticas p\u00fablicas de educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade precisam ser muito bem sustentadas para que a gente consiga avan\u00e7ar no desenvolvimento dessas crian\u00e7as, que v\u00e3o virar adolescentes e adultos\u201d.<\/p>\n<p>Mayck Hartwig destaca que, no Brasil, as pessoas com autismo ainda encontram desafios importantes, n\u00e3o s\u00f3 em rela\u00e7\u00e3o ao acesso a tratamento e terapias, como tamb\u00e9m \u00e0 sua inser\u00e7\u00e3o nas universidades e no mercado de trabalho, quando adultas.<\/p>\n<p>\u201cAinda existe um desafio importante em rela\u00e7\u00e3o ao acesso a terapias e tratamentos em equipamentos p\u00fablicos. Ent\u00e3o boa parte das pessoas vai recorrer a tratamentos cl\u00ednicos particulares. Aqueles que est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social e financeira n\u00e3o conseguem acessar esse tratamento. T\u00e3o importante quanto o diagn\u00f3stico \u00e9 o acesso ao suporte cl\u00ednico, social, de inser\u00e7\u00e3o e perman\u00eancia nas universidades, de inser\u00e7\u00e3o e perman\u00eancia no mercado de trabalho\u201d.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o se sabe o que causa o autismo. Pesquisas mostram, no entanto, que essa condi\u00e7\u00e3o do neurodesenvolvimento at\u00edpico \u00e9 multifatorial e ocorre pela intera\u00e7\u00e3o de componentes gen\u00e9ticos e ambientais.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia, em Volta Redonda, no sul fluminense, foram dif\u00edceis para Ricardo. 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